“O jornalismo é uma profissão maldita”

Gil Campos comenta sobre a prática diária jornalística e sua experiência profissional

Por Caroline Campos, Carolina Capucho, Bruno Lopes e Vinícius Santos

Gil Campos em sua sala, que ele caracterizou como “vermelho da cor do inferno”— Foto: Caroline Campos

redação é uma fábrica de loucos”. É assim que Gil Campos, jornalista há 30 anos e diretor de redação do grupo comunicacional MGCom, caracteriza seu local de trabalho. O MGCom, hoje um dos mais importantes grupos da Grande São Paulo, abrange os jornais Estação e Guarulhos Hoje, ambos diários, e o Jornal do Farol, semanal. Através de contatos pré-estabelecidos e da disponibilidade de recepção, a entrevista foi realizada na sede da empresa, na cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Lá, Gil é encarregado de decidir o conteúdo jornalístico e filtrar matérias e releases. O cargo que ele ocupa é o mais alto da empresa, sendo superado somente pelo proprietário.

Todas as edições têm distribuição gratuita, totalizando cerca de 4 milhões de exemplares por mês. Só o jornal Estação, por exemplo, imprime aproximadamente 150 mil cópias por dia, distribuídas nas principais estações do metrô de São Paulo. De modo geral, as notícias têm enfoque regional — isto é, da cidade de circulação — mas também cobrem pautas nacionais e internacionais.

Apesar da grande demanda por conteúdo, os cortes financeiros levaram o jornal a perder mais da metade de seus repórteres, reduzindo sua equipe de oito para dois profissionais. A medida, ainda que necessária para que a circulação do veículo perdure, é considerada ruim porque aumenta a necessidade de alimentar as produções com conteúdo de agências de notícias. No caso da MGCom, assinam-se os textos da Agência Estado, vinculada ao jornal O Estado de São Paulo.

Para Campos, lugar de repórter é na rua, correndo atrás de entrevistados, de pauta: “Fonte é fonte. O melhor da redação é aquele que tem mais fontes. Um repórter sem fonte não é repórter”. Com isso, ele critica a formação dos novos profissionais, afirmando que as faculdades de comunicação “vomitam” milhares de jornalistas todo ano, a grande maioria acomodada com a tela do computador e sem intenção de ir para a rua. Um exemplo dado pelo entrevistado é que, muitas vezes, ele ouve de sua sala sirenes e não percebe de seus repórteres nenhuma mudança de comportamento, tampouco despertar de curiosidade.

Em relação ao financeiro, os jornais sobrevivem por meio da venda de anúncios, resultando em pressões por parte do departamento comercial e uma fiscalização de matérias que contrapõem as preferências de tais anunciantes. Além da censura externa, o diretor de redação também reforça o conflito de interesses internos que envolvem figuras do círculo social do dono do jornal. “A liberdade de imprensa vai até onde o dono quer. (…) O que é matéria relevante e o que não é? É o dono da empresa quem define. Todo jornal tem seus compromissos políticos”, critica Campos. O jornalista ressalta também que, conhecendo os trâmites que cercam uma redação, acaba por si só regulando suas matérias, em uma espécie de autocensura.

Não é primeira vez que a censura interfere na vida de Gil. Paraibano, foi repórter policial por 12 anos em Campina Grande, onde denunciou casos de abuso policial e tentativas de implantação de esquadrões de morte na cidade. Em 1995, concorreu ao prêmio Esso pela matéria “Mata-se jornalistas, paga-se bem”, capa da revista Imprensa, sobre crimes contra profissionais da área na região do Nordeste. Esses acontecimentos levaram ao assassinato de sua irmã e prima, além de dois atentados a bala, que o obrigaram a fugir para São Paulo.

Mesmo assim, o jornalista não parou suas investigações e, em 2012, elaborou uma reportagem para a extinta revista Free São Paulo sobre os 10 anos da morte de Celso Daniel, relacionando-a com o Partido dos Trabalhadores. Além de mais ameaças, resultou em quatro processos contra o veículo, três desses ainda em tramitação, e na transformação da revista no jornal Estação. Perguntado sobre arrependimentos, Gil surpreende: “Faria tudo de novo, do mesmo jeito. Se a gente não for a voz da sociedade e do oprimido, por que a gente tá na profissão?”.

Por fim, baseado nas renúncias pessoais que foi e é obrigado a fazer, ele conclui: “o jornalismo, para mim, é uma profissão maldita. Quando você decide ser jornalista, você abre mão de muita coisa. Você perde sua vida social”. Apesar do cansaço, Gil se mostra um profissional esperançoso e ainda apaixonado, afirmando que mesmo com a repressão, a imprensa não morrerá.

Capa da revista Free São Paulo de maio de 2012

Praticando o jornalismo desde 2019 — ou, até então, tentando.

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