Dei liberdade para a Ana fazer o que ela quiser que viesse a mente dela. O resultado foi esse. Eu a amo.

Eu vejo um corpo morto no tapete. O lábio já roxo, os olhos abertos encarando a parede azul-mar que cerca todo o quarto, o sangue ainda escorrendo. As coisas inacabadas se amontoam na escrivaninha. Livros, papéis, trabalhos, todos se resumem em nada. Olho de novo — o corpo ainda está morto. Nenhum espasmo. Nenhum sinal. Nada além do silêncio brutal e definitivo que a morte traz. Me pergunto o porquê e dou risada. Ora, se existisse essa resposta, que loucura viveríamos! Mas estamos fadados a nunca desvendar. Acredito que se o fizéssemos, parávamos de viver. Viveríamos para morrer. Um milhão de coisas passam pela minha cabeça enquanto encaro seu corpo sem vida. Penso no momento do último suspiro e na inevitável conclusão do que ia acontecer — será que teve medo? Eu teria. Sou covarde, penso. Depois de uma série de conclusões mórbidas e melancólicas, desisti. Bem, sim, tem um corpo morto no chão. Em cima do tapete branco, agora avermelhado. Ah, vai, podia ser pior. Podiam ser dois corpos mortos no chão. Podia ser um corpo despedaçado. Mas é só… um corpo. De alguém. De uma pessoa que teve uma vida, talvez uma boa vida. Droga, isso é bem difícil na verdade. Como encarar a morte de uma forma positiva? A morte é uma porta bem fechada no fim do caminho que a gente carrega a chave a vida inteira e nunca podemos abrir. Às vezes, roubamos a chave. Roubamos a vida. A nossa, a de alguém. Ou, quem sabe, a chave ao redor do pescoço nos sufoca tanto a ponto de darmos um chute tão forte na porta que, quando percebemos, estamos estirados em um tapete branco com os pulsos escorrendo sangue. Independente do que eu tenha a dizer, o corpo continua lá. De vez em quando, parece que me encara. Penso se algo passa atrás daqueles olhos que há tão pouco cruzaram com a morte. A cena vai tomando um pouco mais de forma conforme me ajusto no espaço. Ando de um lado para outro, sempre pensando no que deveria fazer. Vou me aproximando, tentando ver com mais clareza, procurando sua chave. Vejo uma faca grande, manchada de vermelho. Vejo lágrimas nos cantos dos olhos desalmados. Isso! Isso que está faltando: uma alma. Será que foi embora assim que trombou com o fim? Será que está vagando pelo quarto procurando um caminho? Queria poder guiá-la. Deve estar se sentindo tão perdida. Passo por um espelho, não há nada nele. Passo pela mesa, um papel se destaca. Sento do seu lado — pobre corpo. Suas mãos se parecem com as minhas. As mãos que não há muito seguraram a faca, suponho. Por um momento, a visualizo em minha mão. Não, eu não faria nada disso. Como poderia? Veja, minha chave está logo aqui. Porém, não a acho. Estranho, devo ter a esquecido em algum lugar. Alguma coisa muito forte está quebrada no ar, penso enquanto continuo olhando para o corpo que jaz na minha frente. De repente, um turbilhão de pensamentos toma conta de mim. Dor, muita dor. Tudo que penso me machuca. Sinto medo. Um medo visceral que não me permite olhar para os lados. Um medo que me consome a ponto de me fazer perder os sentidos. Preciso que isso pare! Tento puxar o ar e nada vem. Como fiquei desse jeito tão subitamente? Como um lampejo, tudo muda. Me acalmo enquanto vejo a cena ao meu redor se desmanchar em cinzas. O quarto se torna mais colorido. Uma pessoa anda calmamente ao redor dele. Deixa o papel sobressalente que vi na mesa. E então.. A faca! Está em sua mão. Em um milésimo de segundo, acaba, como se a decisão já tivesse sido tomada há tempos. Chegamos ao fim da cena. O corpo reaparece no mesmo lugar, no meio da branquitude manchada do tapete. Reflito sobre o que acabei de ver e me sinto tontear. A faca se tornara familiar porque eu a empunhara. Logo antes de cair ao tapete. Do espelho que antes não via nada, vejo a mesma pessoa. De pé, olhando para si mesma, morta. Que vida que tive. Acabei encontrando a alma perdida, afinal. Para onde devo ir, então? Morte, se me escutas, me guias? A resposta é clara — silêncio. A vastidão do fim me acerta dolorosamente. Queria poder seguir o azul-mar de minhas paredes. Queria achar minha chave. Quero tudo, menos voltar. Se isso é estar em paz, queria estar no vazio. Ou talvez já esteja. Vazio. Será que a paz não é nada além da supressão do sentir? Não sentia em vida, não sinto em morte. Que peça que a vida nos prega. Caminhamos até a porta para a abrirmos e encontramos uma imensidão de portas, todas dando a lugar nenhum. Deve estar rindo de mim, Ceifadora. Não reconheci meu próprio eu. Me meti em uma grandessíssima piada, bravo! Acaricio meus próprios cabelos. Ó pobre criatura, penso. Fez o que fez pela necessidade do vazio. Por viver no nada. E, agora, outro vazio te chama. O ponto crucial em que chegamos. Não há mais nada aqui. Com uma fiel despedida, saio pela porta. Começo a caminhar, encontrando e trombando com outros desorientados. Sigo caminhando. Caminhando. Caminhando até a outra porta, com a chave já em mãos.

Praticando o jornalismo desde 2019 — ou, até então, tentando.